Frases de Impacto Moral



Autores relacionados:Baltasar Gracián y Morales,
autor Uma mulher entre parênteses Tinha algo a dizer, mas jamais aos gritos, jamais com ênfase, jamais invocando uma reação Era como ela catalogava as pessoas: através dos sinais de pontuação. Irritava-se com as amigas que terminavam as frases com reticências... Eram mulheres que nunca definiam suas opiniões, que davam a entender que poderiam mudar de ideia dali a dois segundos e que abusavam da melancolia. Por outro lado, tampouco se sentia à vontade com as mulheres em estado constante de exclamação. Extra, extra! Tudo nelas causava impacto! Consideravam-se mais importantes do que as outras! Ela, não. Ela era mais discreta. A mais discreta de todas. Também não era do tipo mulher dois pontos: aquela que está sempre prestes a dizer uma verdade inquestionável, que merece destaque. Também não era daquelas perguntadeiras xaropes que não acreditam no que ouvem, não acreditam no que veem e estão sempre querendo conferir se os outros possuem as mesmas dúvidas: será, será, será? Ela possuía suas interrogações, claro, mas não as expunha. Era uma mulher entre parênteses. Fazia parte do universo, mas vivia isolada em seus próprios pensamentos e emoções. Era como se ela fosse um sussurro, um segredo. Como uma amante que não pode ser exibida à luz do dia. Às vezes, sentia um certo incômodo com a situação, parecia que estava sendo discriminada, que não deveria interagir com o restante das pessoas por possuir algum vírus contagioso. Outras vezes, avaliava sua situação com olhos mais românticos e concluía que tudo não passava de proteção. Ela era tão especial que seria uma temeridade misturar-se com mulheres óbvias e transparentes em excesso. A mulher entre parênteses tinha algo a dizer, mas jamais aos gritos, jamais com ênfase, jamais invocando uma reação. Ela havia sido adestrada para falar para dentro, apenas consigo mesma. Tudo muito elegante. Aos poucos, no entanto, ela passou a perceber que viver entre parênteses começava a sufocá-la. Ela mantinha suas verdades (e suas fantasias) numa redoma, e isso a livrava de uma existência vulgar, mas que graça tinha? Resolveu um dia comentar sobre o assunto com o marido, que achou muito estranho ela reivindicar mais liberdade de expressão. Ora, manter-se entre parênteses era um charmoso confinamento. Minha linda, você é uma mulher que guarda a sua alma. Um dia ela acordou e descobriu que não queria mais guardar a sua alma. Não queria mais ser um esclarecimento oculto. Ela queria fazer parte da confusão. Mas, minha linda... E não quis mais, também, aquele homem entre aspas. (Martha Medeiros)

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autor O corpo reage ao coração ou reage à mente? 08/05/09 Estou tão cansada. Quase não tenho força. Hoje estou naqueles dias em que dá vontade de dormir e acordar dez anos depois. Você já ouviu falar em sono reparador? Queria dormir e acordar dez anos mais linda e dez anos mais burra. Interessa a você saber que estou apaixonada? Impressionante como essa palavra acorda os outros. Eu estou apaixonada, mas não é por uma pessoa. Estou apaixonada pela lembrança de algo leve, solto e rápido, como uma bola de gás que escapa da nossa mão e passa a ficar cada vez menor e mais distante. Estou apaixonada pelo impacto da vida, por um tiro certeiro e bem mirado, pelo arrebatamento provocado pelo descuido das minhas defesas. Quem está no comando dentro de nós? Andei flertando com o perigo e no entanto o perigo estava dentro de mim, dentro desse coração que empacou nos 15 anos, aquela época em que eu era uma velha e acreditava no amor. Toda mulher romântica é uma idosa. Não acredito que eu tenha caído nessa cilada, me apaixonar por uma situação. Por que não estou apaixonada por alguém, estou apaixonada por algo. Algo completamente inatingível. Estou apaixonada por marcar encontros, por receber mensagens safadas, emails, por estacionar olhando pros lados, temendo ser reconhecida. Apaixonada por entrar no apartamento de um estranho, por tirar a roupa, por gozar com um estranho. Apaixonada por aquilo que inspira os filmes B e os romances vendidos em banca. Quem está no comando, me diga? É claro que ele tem rosto, nome e sobrenome. Mas isolado, longe do cenário, ele não me comove. Ele me comove acionando em mim a outra, aquela que só deixo sair da casca de vez em quando. Ele é o xerife que dá liberdade condicional ao meu lado fora-da-lei. Se o xerife desiste da brincadeira, ela precisa voltar pra sua prisão domiciliar. Não me venha falar de outros namorados, não me interessa uma transferência imediata, seria simplista demais. Quero o circo todo a que tenho direito: sedução, fantasia, tempo. Quero um romance longo, quero intimidade. Fazer cena de ciúme, terminar, voltar, amar, brigar de novo, telefonar, pedir desculpas, retornar. Amantes bem comportadas são um tédio. Se eu estivesse no comando, pinçaria do meu caderninha meia dúzia de frases que liquidariam a questão. Foi bom enquanto durou. O destino sabe o que faz. Tudo tem seu preço. O show deve continuar. Este tipo de clichê. Mas quem está no comando é ela, a que não quer voltar pra cela. Rebelião no presídio feminino: ela fugiu do meu controle. Ela é romântica como uma adolescente. Visceral. Caótica. Ela chora como uma menininha. Cria diálogos tão convincentes durante suas madrugadas insones que chega a acreditar que eles aconteceram. Viajandona. Doce. Áspera. Virginal. Ela me enlouquece. Ela determina a hora de voltar pra casa, e eu aguardo por ela com uma ansiedade quase sexual. Quem está apaixonada? Ela por ele? Eu por ela? Ou tudo não passa de um sentimento solto, sem dono, caçoando de todos nós? (Martha Medeiros)

Conceitos relacionados: reage cansada coração mente? 08/05/09 estou reage

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autor Espelhos Vivos- ZH 02/05/07
(martha.medeiros@zerohora.com.br)
Estava assistindo ao RBS Notícias, meio distraída, quando apareceu na tela o depoimento de um homem. Eu não estava prestando atenção na matéria, não sei que assunto estava sendo tratado, mas aquele homem eu conhecia. Grisalho, óculos de grau, um senhor. Mas um senhor de feições familiares. Quando apareceu o nome dele nos créditos, pensei: eu conheci um cara com este nome. Claro!!! Era um amigo que eu não via há muito tempo. Pertencemos a uma mesma turma anos atrás. Muita praia pegamos juntos. Lembro dele surfando, namorando as garotas mais bonitas, um sujeito muito engraçado. Pois era ele que estava ali na tevê de terno e gravata, grisalho, de óculos, era ele aquele senhor - da minha idade!!!

Costumamos conferir os estragos do tempo nos espelhos de casa, mas eles já se acostumaram com a nossa imagem. A gente se enxerga tantas vezes por dia que não repara nas ruguinhas que surgem e nos fios de cabelo branco recém-nascidos. Tudo o que vemos demais se torna quase invisível. É preciso um impacto para a gente cair na real. Algo como dormir 15 anos e acordar de repente. Ou ver uma foto antiga. Ou assistir na tevê ao depoimento de um amigo sumido. Este amigo amadureceu, tornou-se um profissional respeitado, mas deve seguir o mesmo brincalhão de sempre. E é bem possível que, se ele me visse na tevê, pensasse o mesmo de mim: de onde eu conheço essa senhora? E cairia para trás ao lembrar que tivemos 20 anos de idade no mesmo verão.

O espelho mais realista são os outros. Quando vejo Robert Redford, hoje, não consigo acreditar que é o mesmo homem que atuou em Butch Cassidy, e o mesmo vale para sua versão nacional, o Francisco Cuoco, que foi o Gianecchini dos anos 70 e hoje é um charmoso matusalém. O tempo tem rosto, o tempo tem mãos, o tempo tem voz - e nada disso permanece o mesmo.

sorriso. Minha mãe se mantém linda em qualquer idade, e a Tereza, empregada que trabalha com ela desde os 14 anos de idade e hoje é avó, não mudou nadinha. Um caso a ser estudado pela ciência.

A moral da história é que espelhos vivos podem nos dar boas ou más notícias. Depende do nosso olhar. E do nosso humor.
(Martha Medeiros)

Conceitos relacionados: 02/05/07 espelhos estava assistindo (martha medeiros@zerohora com br)

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autor SALVEM AS VOGAIS

O que pode ser mais miserável do que uma pessoa faminta,
sem teto, sem futuro, sem saúde? Sabemos que não são
poucos os miseráveis do país, mas às vezes esquecemos da
quantidade também imensa de miseráveis que está em nossa
órbita, cuja barriga não está vazia, mas a cabeça, totalmente.

Acompanhei a transcrição dos chats que foram divulgados pela
imprensa, para que se saiba mais sobre o que aconteceu com
aquele rapaz que morreu num posto de gasolina, depois de uma
briga. Lula nem precisava levar os ministros para o Nordeste para
que eles conhecessem a pobreza extrema, bastaria que entrassem
numa sala de bate-papo virtual. Miséria psicológica também atola
um país.
Dependendo da escolha do assunto, é possível encontrar na
internet conversas que fazem sentido, com frases que têm começo,
meio e fim, mas na maioria das salas o que costuma rolar é um papo
furado da pior qualidade, com altos teores de vulgaridade e agressividade.
Um bando de seres abreviados, tal como escrevem. Um miserê de dar medo.
A fome de pão e leite tem que ser saciada com urgência, mas
nossa miséria é mais ampla e se manifesta de várias maneiras,
não só através da perda de peso e dos ossos aparecendo sob
a pele. Miséria é perda de discernimento. Perda de amor-próprio.
Perda de limites. Até perda de vogais: vc q tc cmg? Normal: códigos
de internautas. Mas me diz se não é o retrato da penúria?

Eu vejo miséria por todos os lados, em todos os andares dos edifícios,
dentro dos carros, fora deles, em portas de escolas e dentro delas, do
lado de fora da nossa casa ae também ali comodamente instalada,
miséria espiritual, miséria afetiva, miséria intelectual, indigências que
tornam o ser humano cada dia mais tosco e bruto. Eu sei que a vida
é assim mesmo, que os tempos são outros, que não adianta vir com
moralismo e com este papo de que a família tem que participar mais
da vida dos filhos, nada adianta, o rio vai seguir correndo para a mesma
direção. Eu sei. Mas não me conformo.

O alfabeto tem 21 consoantes, se contarmos o K, o Y e o W.
E apenas cinco vogais. Perdê-las é uma metáfora da miséria
humana. Cada dia abandonamos as poucas coisas em nós que
são abertas e pronunciáveis. Daqui a pouco vamos apenas rugir.
Grrrrrrr. E voltar para a caverna de onde todos viemos.
(Martha Medeiros)

Conceitos relacionados: o pessoa miserável vogais

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