Mensagem de Falecimento Pai



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autor Crônica de um amor anunciado Toda pessoa apaixonada é um publicitário em potencial. Não anuncia cigarros, hidratantes ou máquinas de lavar, mas anuncia seu amor, como se vivê-lo em segredo diminuísse sua intensidade. O hábito começa na escola. O caderno abarrotado de regras gramaticais, fórmulas matemáticas e lições de geografia, e lá, na última página, centenas de corações desenhados com caneta vermelha. Parece aula de ciências, mas é introdução à publicidade. Em breve se estará desenhando corações em árvores, escrevendo atrás da porta do banheiro e grafitando a parede do corredor: Suzana ama João. A partir de uma certa idade, a veia publicitária vai tornando-se mais discreta. Já não anunciamos nossa paixão em muros e bancos de jardim. Dispensa-se a mídia de massa e parte-se para o telemarketing. Contamos por telefone mesmo, para um público selecionado, as últimas notícias da nossa vida afetiva. Mas alguns não resistem em seguir propagando com alarde o seu amor. Colocam anúncios de verdade no jornal, geralmente nos classificados: Kika, te amo. Beto, volta pra mim. Everaldo, não me deixe por essa loira de farmácia. Joana, foi bom pra você também? O grau máximo de profissionalismo é atingido quando o apaixonado manda colocar sua mensagem num outdoor em frente a casa da pessoa amada. O recado é para ela, mas a cidade inteira fica sabendo que alguém está tentando recuperar seu amor. Em grau menor de assiduidade, há casos em que apaixonados mandam despejar de um helicóptero pétalas de rosas no endereço do namorado, ou gastam uma fortuna para que a fumaça de um avião desenhe as iniciais do casal no céu. A criatividade dos amantes é infinita. O amor é uma coisa íntima, mas todos nós temos a necessidade de torná-lo público. É a nossa vitória contra a solidão. Assim como as torcidas de futebol comemoram seus títulos com buzinaços, foguetório e cantorias, queremos também alardear nossa conquista pessoal, dividir a alegria de ter alguém que faz nosso coração bater mais forte. É por isso que, mesmo não sendo adepta do estardalhaço, me consterno por aqueles que amam escondido, amam em silêncio, amam clandestinamente. Mesmo que funcione como fetiche, priva o prazer de ter um amor compartilhado. (Martha Medeiros)

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autor Mensagem à poesia Não posso Não é possível Digam-lhe que é totalmente impossível Agora não pode ser É impossível Não posso. Digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu encontro. Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo. Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundo E as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas carpindo A saudade de seus homens; contem-lhe que há um vácuo Nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema; contem-lhe Que a vergonha, a desonra, o suicídio rondam os lares, e é preciso reconquistar a vida Façam-lhe ver que é preciso eu estar alerta, voltado para todos os caminhos Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso. Ponderem-lhe, com cuidado – não a magoem... – que se não vou Não é porque não queira: ela sabe; é porque há um herói num cárcere Há um lavrador que foi agredido, há um poça de sangue numa praça. Contem-lhe, bem em segredo, que eu devo estar prestes, que meus Ombros não se devem curvar, que meus olhos não se devem Deixar intimidar, que eu levo nas costas a desgraça dos homens E não é o momento de parar agora; digam-lhe, no entanto Que sofro muito, mas não posso mostrar meu sofrimento Aos homens perplexos; digam-lhe que me foi dada A terrível participação, e que possivelmente Deverei enganar, fingir, falar com palavras alheias Porque sei que há, longínqua, a claridade de uma aurora. Se ela não compreender, oh procurem convencê-la Desse invencível dever que é o meu; mas digam-lhe Que, no fundo, tudo o que estou dando é dela, e que me Dói ter de despojá-la assim, neste poema; que por outro lado Não devo usá-la em seu mistério: a hora é de esclarecimento Nem debruçar-me sobre mim quando a meu lado Há fome e mentira; e um pranto de criança sozinha numa estrada Junto a um cadáver de mãe: digam-lhe que há Um náufrago no meio do oceano, um tirano no poder, um homem Arrependido; digam-lhe que há uma casa vazia Com um relógio batendo horas; digam-lhe que há um grande Aumento de abismos na terra, há súplicas, há vociferações Há fantasmas que me visitam de noite E que me cumpre receber, contem a ela da minha certeza No amanhã Que sinto um sorriso no rosto invisível da noite Vivo em tensão ante a expectativa do milagre; por isso Peçam-lhe que tenha paciência, que não me chame agora Com a sua voz de sombra; que não me faça sentir covarde De ter de abandoná-la neste instante, em sua imensurável Solidão, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale Por um momento, que não me chame Porque não posso ir Não posso ir Não posso. Mas não a traí. Em meu coração Vive a sua imagem pertencida, e nada direi que possa Envergonhá-la. A minha ausência. É também um sortilégio Do seu amor por mim. Vivo do desejo de revê-la Num mundo em paz. Minha paixão de homem Resta comigo; minha solidão resta comigo; minha Loucura resta comigo. Talvez eu deva Morrer sem vê-Ia mais, sem sentir mais O gosto de suas lágrimas, olhá-la correr Livre e nua nas praias e nos céus E nas ruas da minha insônia. Digam-lhe que é esse O meu martírio; que às vezes Pesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade e as poderosas Forças da tragédia abatem-se sobre mim, e me impelem para a treva Mas que eu devo resistir, que é preciso... Mas que a amo com toda a pureza da minha passada adolescência Com toda a violência das antigas horas de contemplação extática Num amor cheio de renúncia. Oh, peçam a ela Que me perdoe, ao seu triste e inconstante amigo A quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhante A quem foi dado se perder de amor por uma pequena casa Por um jardim de frente, por uma menininha de vermelho A quem foi dado se perder de amor pelo direito De todos terem um pequena casa, um jardim de frente E uma menininha de vermelho; e se perdendo Ser-lhe doce perder-se... Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame Que me espere, porque sou seu, apenas seu; mas que agora É mais forte do que eu, não posso ir Não é possível Me é totalmente impossível Não pode ser não É impossível Não posso. (Vinícius de Moraes)

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autor A filosofia popular sobre a morte Quando eu era criança, o velório era um acontecimento. A cidade era pequenina, então tudo se divulgava rápido. Em pouco tempo, o alto-falante da igreja onde o falecido frequentava comunicava, em alto e bom som, o passamento desta para uma vida melhor, ou se usava um carro anunciando detalhes: quem morreu, onde, idade, motivo do óbito. A morte pairava nas piadas! Antes de acontecer o pior, até o doente bem humorado brincava: fiquei tão mal que por mais um pouco comia capim pela raiz; pensei que ia vestir um pijama de madeira, etc... Depois, se porventura o sujeito morresse, aí, sim, a coisa era levada a sério e o sepultamento era um fato social marcante. Naquele tempo não se fechava uma tampa de caixão sem jogar perfume e pétalas de flores sobre o defunto. Já fui encarregada de comprar muito perfume ruth para pulverizar por cima do morto. Nunca me esqueci do cheiro. O perfume, claro, perdia a personalidade, por causa do odor muito forte de cravo, cravina, brinco de princesa, de rosas miúdas de cores variadas. Não havia casa de venda de flores, as crianças saiam pedindo nas portas das casas. Já ouvi muita coisa. - Esse defunto morava em cima da pedra? - Vou dar, mas não sei nem se merece. - Vá em paz. Houve negação: - Pra aquele cara? Bata em outra porta. A caravana de crianças saía em mutirão solidário e não respondia a nenhuma provocação, nada. Quem deu, tudo bem. As coroas de flores eram artificiais, confeccionadas com papel crepom. Excepcionalmente, aparecia uma coroa de flor natural. Se morresse um bebê, a partir de um ano, ou um jovem, as pessoas choravam mais, conhecendo ou não o falecido. Quando morria um velhinho, a conformação era maior, mas mesmo assim, as pessoas choravam muito mais do que hoje. Na hora em que o caixão ia passando para o cemitério, as portas do comércio ficavam quase fechadas. Os rádios eram desligados, os homens tiravam o chapéu, até o de palha; era muito silêncio. Se fosse enterro de católico, o sino da igreja batia compassado: tom... tom... tom... E eu ficava pensando, que pena! Devia tocar pra todo mundo. Os velórios tinham longa duração. Os alto-falantes, dependendo da importância do sujeito, davam uma nota, de tempo em tempo, com uma voz de relações públicas de necrotério: A família de ... comunica a sua partida... - anunciando a hora tradicional do sepultamento que nem era mais novidade pra ninguém: 16h. Todo mundo lá era enterrado nessa hora. Um dia falei para o meu pai que a nota de falecimento estava errada, porque a pessoa que morre não parte, ela chega. E vi que ele acabou rindo. A verdade é esta: chorava-se mais! Ainda havia loja vendendo lenço pra todo lado e a gente, ao sair de casa, ouvia a recomendação: não se esqueça do lenço. Tinha lenço de tudo quanto era jeito: xadrez, de bolinha, de florzinha. Era muita lágrima! Nas festas de aniversário o que mais as pessoas ganhavam era caixa de lenço. O luto pela morte era longo. Minha avó ficou de luto uns 20 anos e com as duas alianças no dedo: a dela e a do jovem marido falecido. Depois começou a vestir roupa cinza, até se vestir, discretamente, como viúva eterna: roupas feitas com tecido de fundo preto e flores brancas. O cemitério estampava, logo na entrada: revertere ad locun tuun. Fui saber o que significava aquilo com o único funcionário no local: o coveiro. Fiquei espantada, porque o coveiro respondeu, automaticamente: - a tradução daquilo escrito ali é: - Volte ao teu lugar. Ele sabia latim e eu detestava. Ele disse o que significava a frase, sem olhar para a parede, sabia de cor. É assustador, mas aprendi a falar a única frase que eu sabia no primeiro ano do ginásio com o coveiro. E não deu outra. Na segunda feira, estufei o peito e disse para a minha colega de carteira escolar: revertere ad locun tuun. Ela me olhou assustada e eu esnobei: aprendi latim (ela também tinha horror) e disse a frase, várias vezes, sem tropeçar na pronúncia e traduzi, sem dicionário. Ela ficou de boca aberta. Onde você aprendeu tudo isto. E eu nem parei para pensar: - no cemitério. Ela também passou a frequentar os velórios! (Ivone Boechat)

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Por: admin
autor DIAS DESSES provavelmente terei vivido mais da metade da minha vida no século passado, daqui pra frente estou decidido nada será como tem sido um jogo já jogado, provavelmente ter escolhido este caminho só faz sentido sem pressa e para sempre, nalma da gente já existia cicatriz antes do corte, cinza antes do fogo, vida após morte... Nem sempre os numéros estão com a razão.Às vezes, os adjetivos se aproximam mais da verdade. Mas, na hora certa, 0,1,2,3,4,5,6,7 e 9 são ótimos companheiros. Tá te achando o máximo? Experimenta colocar teus anos de vida numa timeline mais abrangente. Não precisa ir muito longe, um único século basta. Garanto que os pés voltam ao chão rapidinho. Desde o início da minha saga de músico-amador-profissional, acompanhei várias mudanças drásticas (ah, que vontade de usar a palavra revoluções) na tecnologia de audio. Entre elas, a digitalização (que tirou do chão os pedais e empilhou os efeitos num rack) e o MIDI (um protocolo para teclados trocarem informação). Sem falar nos processos de gravação. Oops estúdio é papo de produtor. E produtor é quem transfroma música em produto. E eu sou músico. A revolução (pronto, usei a palavra) mais sintomática foi uma que não aconteceu.Na primeira metade dos anos 90, a revista Keyboard veio com uma capa definitiva:The Next Big Thing. Falava de uma nova tecnologia de sintetizadores. {Nos anos 60, se os sintetizadores analógicos queriam imitar o som de algum instrumento já existente, o resultado ficava tão distante que soava original. E ser original, acreditem, era do caralho! Com a digitalização, nos anos 80, abria-se uma estrada potencialmente infinita para a originalidade. Dando as costas a esta estrada, os sintetizadores começaram a ter, cada vez mais, sons que imitavam instrumentos já existentes: pianos, órgãos, cordas, metais e até Moogs e Oberheims (os teclados analógicos do passado). Criou-se um vácuo, um buraco negro. Uma época sem sons próprios.} A tal nova tecnologia anunciada na capa da Keyboard permitiria, além de copiar quaquer instrumento, criar instrumentos virtuais. Se bem me lembro, davam como exemplo uma flauta com 3 metros de comprimento. Kitsch, mas, pelo menos, promessa de novos sons. Só promessa. A revolução morreu na casca. O que pintou foi mais do mesmo: sons de piano elétrico (anos 40), sons de piano acústico (século XVIII), os sons que Keith Emerson tirava dos Moog e que Jon Lord tirava do órgão Hammond (anos 70), o som que Van Halen tirava de um Oberheim (anos 80) A guitarra ficou nos anos 60/70. Este instrumento ump! To the past.. ainda evoluiu até o início dos 90, com a sonoridade quase nerd dos shredders (caras que apostavam corrida nos braços das guitarras, os gatilhos mais rápidos do oeste). São desta época os últimos modelos a ter alguma relevância: Kramer, Parker Fly, Paul Reed Smith... O grunge acabou com os atletas da guitarra e suas armas letais. Voltou-se à época dourada das Fender, Gibson, Rickenbacker... É óbvio e, ainda bem, que há exceções nesta história que exponho de maneira tão generalista. Os sons têm significados técnicos (frequências, timbres) e culturais (quem usou, em que canções). Características inatas e adquiridas. Misturando estas duas perspectivas, coisas interessantes e inesperadas acontecem. Astor Piazzolla fez sociologia e piada quando disse que o bandoneon nasceu na igreja mas cresceu nos bordéis. Um dos sons mais sexys do mundo, a Clavinet Hohner usada por Stevie Wonder eletrificava o som do cravo (sim, o cravo do período barroco). O mesmo caminho foi feito pelo órgão Hammond: originalmente pensado para igrejas e lares recatados, se transformou num som tão maravilhosamante sacana quanto a guitarra. Taí o Deep Purple de Jon Lord e Ritchie Blackmore que não me deixa mentir. Smoke on the water, fire in the sky Peixe fora dágua, borboletas no aquário. Coisas fora do lugar. Inesperado e interessante. Como o mictório branco que Marcel Duchamp transformou em peça de museu. eu sei, a onda é teclado virtual, luvas com dedos é o normal,mas tenho ideias caminhando e onde ando faz um frio glacial.. Música sempre foi uma atividade social. Com o surgimento do walkman começou a individualização do que era coletivo. Na contramão, resta a praga dos caras que abrem o porta-mala do carro num posto de gasolina pra beber cerveja quente e ouvir a eguinha pocotó. Minha amiga tá atucanada procurando novos fones de ouvido. Quer o melhor som que seu dinheiro pode comprar. Me pediu dicas... não sei se ajudei. Por deformação profissional, os fones que uso se parecem mais com um árido raio X de tórax do que com uma bela pintura de torso. E são muito caros. Espero que minha amiga tenha encontrado as frequências graves que procurava. Ela tinha razão na sua atucanação: fones são mais importantes do que roupas. Mal posso esperar o início da temporada dos fashion weeks . Acompanho pela TV. Não os desfiles, pois não tenho talento para apreciá-los. O que me fascina é a cobertura especializada, os comentários, as entrevistas com estilistas. Nem na Academia Brasileira de Letras nem nas vanguardas do modernismo o verbo foi levado a limites tão longínquos. Me divirto muito. Numa dessas, ouvi essa: a coleção sintetiza a história dos Jogos Olímpicos e tudo que aconteceu na Rússia,dos czares ao comunismo. Impagável! E dê-lhe tendência pra lá e tendência pra cá. O termo é onipresente. Atrás desta palavra suave (que sugere possíveis caminhos), se esconde uma rígida lista de regras e imposições. Estou exagerando? Tente comprar uma calça sem bolsos nas pernas quando esta não for a tendência. Será tão fácil quanto comprar uma camisa do Renato Gaúcho na loja do Inter. Se for tendência, a calça com excesso de bolsos será inevitavel como uma camisa do Zico na loja do Flamengo. Dias desses perdemos um GreNal decisivo. Nos pênaltis! Nosso centroavante chutou a bola a perder de vista. Algumas horas mais tarde, Osama Bin Laden foi assassinado. Não lembro de terem usado a palavra assassinato. Eufemismos devem ter limpado a cena do crime. Ok, o cara era uma mala, mas, pelo meu dicionário, o termo seria esse mesmo. Por conta do meu fuso horário disfuncional (fruto do meu talento inato para trocar o dia pela noite e da minha rotina-sem-rotina de músico-amador-profissional), eu estava dormindo quando a notícia tomou conta do mundo. Quando acordei, a crer no relato, o corpo de Bin Laden jazia no mar havia algumas horas. A primeira mensagem que li no twitter dizia: pô, esta piada é velha! RT: Osama morreu por que foi atingido pela bola do pênalti que Borges errou. Menos de 24h horas depois, a piada já era velha? Era. Caraca! Dia desses vi, na capa do jornal, o desenho de um iPod andando de bengalas e usando cachecol, óculos e boina. O aparelho (tão inovador há tão pouco tempo) fora transformado num velhinho para ilustrar uma matéria que anunciava o iminente fim de seus dias. Caraca! Tempos velozes para as piadas e para a tecnologia. Hegemonia me irrita. Melhor: me dá sono. Melhor ainda: irrita E dá sono. Seja nas relações pessoais, nas inovações tecnológicas, na indústria cultural ou mesmo no futebol. Neste, se trata de ganhar, é claro. Mas acho bobagem o papo sobre quem tem o maior estádio, a maior torcida. Na indústria cultural, não é de agora o uso de metáforas bélicas: o filme foi um blockbuster. A música estourou. Rolou uma blitz de divulgação. Sintomático: guerra, hegemonia. Fico irritado e com sono quando, num piscar de olhos, o país inteiro começa a usar palavras em italiano macarrônico ou termos mal assimilados da cultura indiana por que assim falam numa novela da rede de TV hegemônica. O efeito manada não acontece só nas camadas mais populares. Teus amigos cultos começaram a falar de belle époque com uma sincronicidade estranha? Deve ser influência de um novo filme do Woody Allen. Segundo a tese tecnicista, tudo que pode ser quantificado pode ser comparado e aprimorado. O raciocínio pode servir para uma fábrica de parafusos, mas será que faz sentido para qualificar vinhos, restaurantes ou perfumes? Quando as mais importantes revistas especializadas começaram a dar nota numéricas (números com vírgula!) aos vinhos, a excitação do mercado foi evidente. Uma ferramenta para medir objetivamente o que é subjetivo. Quem realmente entende do assunto despreza estes rankings. Mas, pro mercado, funciona. E muito. Parece que as pessoas não estão interessadas na qualidade do vinho ou no prazer do jantar. Elas querem dizer que tomaram O MELHOR vinho e jantaram nO MELHOR restaurante. Querem estar no lado hegemônico. Existe o melhor beijo? Até pode existir, mas só na opinião de, no máximo, duas pessoas. O melhor beijo jamais será hegemônico. Acho que enveredei para este papo sobre hegemonia por que, enquanto escrevia este texto, na sala de embarque do aeroporto, um menininho puxou o pai pelo braço e, apontando para o meu laptop, disse: Eu queria um computador daqueles da maçã. São os melhores do mundo,pai!. Me deu vontade de dizer: não entra nessa, garoto! O melhor computador é o de quem tem as melhores idéias. Não . adianta entulhar as fotos de filtros bacaninhas que envelhecem e embelezam naturalmente a imagem. Nenhuma maquiagem esconde a falta de conteúdo. Bons fones, se possível. Boa música, sempre! PERGUNTAS QUE SONHEI RESPONDER RESPOSTAS QUE ESQUECI AO ACORDAR Por que pessoas que adoooooram minhas letras vivem mandando letras preu musicar? Será verdade que Ela não gostou do meu dente de ouro? Se são as pessoas mais escrotas que estão acertando profecias o mundo está ficando mais escroto? Por que Ela não gostou do meu dente de ouro? Qual é a droga que salva qual é a dose fatal? Alguém pode mudar de opinião sobre um dente de ouro? Onde estão os caras que desmaterializavam moedas de 10.000 reais? Se as moedas acima fossem de ouro, quantos dentes dariam? A vida é muito curta para vivermos sempre com o mesmo corte de cabelo ou curta demais para experimentarmos outros cortes? Vale a mesma resposta para relacionamentos amorosos? A vida é muito curta para torcermos só para um time ou curta demais para torcermos por vários times? Qual seu prato preferido? -O que estiver mais perto. (sonhei com esta resposta a vida inteira mas quem a encontrou foi H. D. Thoreau) .... Que tal???? aonde leva essa loucura? qual é a lógica do sistema? (Humberto Gessinger)

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autor Monólogo de criança Sou criança! Cheguei, recentemente, de uma longa viagem. Andei pelo caminho misterioso do pensamento dos meus pais, e, durante a concepção, fiz um estágio muito feliz ao lado do coração da minha mãe. Hoje estou aqui, um pouco assustada, porque os adultos conversam coisas confusas que ainda não consegui entender. A vida é simples e bonita, mas os adultos complicam tudo. Sabe, imaginam que nós, crianças, somos incapazes, fracas e bobas. Não é nada disso! A gente está apenas se esforçando para crescer e, à medida que o tempo passa, florescer e ajudar a construir este mundo: soltar os passarinhos das gaiolas, plantar flores nos jardins, devolver o azul cristalino dos nossos lagos e abrir as janelas das casas. As pessoas crescem, ficam fortes e nos sufocam com suas idéias e, às vezes, nem nos deixam falar nada. Algumas, por falta de argumentos, nos agridem. Eu gostaria que nos olhassem como sementes de guerra ou de paz. Quem semeia vento, colhe tempestade. Aos gritos, batendo portas, e com tanta falta de compreensão, a gente pode ingressar na juventude, agressiva e desajustada. Na verdade, a criança tem uma mensagem de paz. Por favor, se você está triste e não se realizou como pessoa, procure, urgente, um outro meio de desabafar suas mágoas. Não deposite suas dores e lágrimas nessa plantinha que mal começa a brotar. Ela se chama criança e só cresce feliz com os fluídos magnéticos do AMOR. (Ivone Boechat)

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autor Fui criado com princípios morais comuns: Quando eu era pequeno, mães, pais, professores, avós, tios, vizinhos, eram autoridades dignas de respeito e consideração. Quanto mais próximos ou mais velhos, mais afeto. Inimaginável responder de forma mal educada aos mais velhos, professores ou autoridades… Confiávamos nos adultos porque todos eram pais, mães ou familiares das crianças da nossa rua, do bairro, ou da cidade… Tínhamos medo apenas do escuro, dos sapos, dos filmes de terror… Hoje me deu uma tristeza infinita por tudo aquilo que perdemos. Por tudo o que meus netos um dia enfrentarão. Pelo medo no olhar das crianças, dos jovens, dos velhos e dos adultos. Direitos humanos para criminosos, deveres ilimitados para cidadãos honestos. Não levar vantagem em tudo significa ser idiota. Pagar dívidas em dia é ser tonto… Anistia para corruptos e sonegadores… O que aconteceu conosco? Professores maltratados nas salas de aula, comerciantes ameaçados por traficantes, grades em nossas janelas e portas. Que valores são esses? Automóveis que valem mais que abraços, filhas querendo uma cirurgia como presente por passar de ano. Celulares nas mochilas de crianças. O que vais querer em troca de um abraço? A diversão vale mais que um diploma. Uma tela gigante vale mais que uma boa conversa. Mais vale uma maquiagem que um sorvete. Mais vale parecer do que ser… Quando foi que tudo desapareceu ou se tornou ridículo? Quero arrancar as grades da minha janela para poder tocar as flores! Quero me sentar na varanda e dormir com a porta aberta nas noites de verão! Quero a honestidade como motivo de orgulho. Quero a vergonha na cara e a solidariedade. Quero a retidão de caráter, a cara limpa e o olhar olho-no-olho. Quero a esperança, a alegria, a confiança! Quero calar a boca de quem diz: temos que estar ao nível de…, ao falar de uma pessoa. Abaixo o TER, viva o SER. E viva o retorno da verdadeira vida, simples como a chuva, limpa como um céu de primavera, leve como a brisa da manhã! E definitivamente bela, como cada amanhecer. Quero ter de volta o meu mundo simples e comum. Onde existam amor, solidariedade e fraternidade como bases. Vamos voltar a ser gente. Construir um mundo melhor, mais justo, mais humano, onde as pessoas respeitem as pessoas. Utopia? Quem sabe?… Precisamos tentar… Quem sabe comecemos a caminhar transmitindo essa mensagem… Nossos filhos merecem e nossos netos certamente nos agradecerão!. (Arnaldo Jabor)

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autor Quero voltar a confiar! Fui criado com princípios morais comuns: Quando eu era pequeno, mães, pais, professores, avós, tios, vizinhos, eram autoridades dignas de respeito e consideração. Quanto mais próximos ou mais velhos, mais afeto. Inimaginável responder de forma mal educada aos mais velhos, professores ou autoridades… Confiávamos nos adultos porque todos eram pais, mães ou familiares das crianças da nossa rua, do bairro, ou da cidade… Tínhamos medo apenas do escuro, dos sapos, dos filmes de terror… Hoje me deu uma tristeza infinita por tudo aquilo que perdemos. Por tudo o que meus netos um dia enfrentarão. Pelo medo no olhar das crianças, dos jovens, dos velhos e dos adultos. Direitos humanos para criminosos, deveres ilimitados para cidadãos honestos. Não levar vantagem em tudo significa ser idiota. Pagar dívidas em dia é ser tonto… Anistia para corruptos e sonegadores… O que aconteceu conosco? Professores maltratados nas salas de aula, comerciantes ameaçados por traficantes, grades em nossas janelas e portas. Que valores são esses? Automóveis que valem mais que abraços, filhas querendo uma cirurgia como presente por passar de ano. Celulares nas mochilas de crianças. O que vais querer em troca de um abraço? A diversão vale mais que um diploma. Uma tela gigante vale mais que uma boa conversa. Mais vale uma maquiagem que um sorvete. Mais vale parecer do que ser… Quando foi que tudo desapareceu ou se tornou ridículo? Quero arrancar as grades da minha janela para poder tocar as flores! Quero me sentar na varanda e dormir com a porta aberta nas noites de verão! Quero a honestidade como motivo de orgulho. Quero a vergonha na cara e a solidariedade. Quero a retidão de caráter, a cara limpa e o olhar olho-no-olho. Quero a esperança, a alegria, a confiança! Quero calar a boca de quem diz: temos que estar ao nível de…, ao falar de uma pessoa. Abaixo o TER, viva o SER. E viva o retorno da verdadeira vida, simples como a chuva, limpa como um céu de primavera, leve como a brisa da manhã! E definitivamente bela, como cada amanhecer. Quero ter de volta o meu mundo simples e comum. Onde existam amor, solidariedade e fraternidade como bases. Vamos voltar a ser gente. Construir um mundo melhor, mais justo, mais humano, onde as pessoas respeitem as pessoas. Utopia? Quem sabe?... Precisamos tentar… Quem sabe comecemos a caminhar transmitindo essa mensagem… Nossos filhos merecem e nossos netos certamente nos agradecerão! (Arnaldo Jabor)

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autor É isso, sei lá, mas acho que amo você. Amo de todas as maneiras possíveis. Sem pressa, como se só saber que você existe já me bastasse. Sem peito, como se só existisse você no mundo e eu pudesse morrer sem o seu ar. Sem idade, porque a mesma vontade que eu tenho de te comer no banheiro eu tenho de passear de mãos dadas com você empurrando nossos bisnetos. E por fim te amo até sem amor, como se isso tudo fosse tão grande, tão grande, tão absurdo, que quase não é. Eu te amo de um jeito tão impossível que é como se eu nem te amasse. E aí eu desencano desse amor, de tanto que eu encano. Ninguém acredita na gente: nenhum cartomante, nenhum pai-de-santo, nenhuma terapeuta, nenhum parente, nenhum amigo, nenhum e-mail, nenhuma mensagem de texto, nenhum rastro, nenhuma reza, nenhuma fofoca e, principalmente (ou infelizmente): nem você. Mas eu te amo também do jeito mais óbvio de todos: eu te amo burra. Estúpida. Cega. E eu acredito na gente. Eu acredito que ainda vou voltar a pisar naqueles cocôs da sua rua, naquelas pocinhas da sua rua, naquelas florzinhas amarelas da sua rua, naquele cheiro de família bacana e limpinha da sua rua. Como eu queria dobrar aquela esquininha com você, de mãos dadas com os pêlos penteados de lado da sua mão. Outro dia me peguei pensando que entre dobrar aquela esquininha da sua rua e ganhar na mega-sena acumulada, eu preferia a esquininha. A esquininha que você dobrou quando saiu da casa dos seus pais, a esquininha que você dobrou chorando, porque é mesmo o cúmulo alguém não te amar. A esquininha que você dobrou a vida inteira, indo para a faculdade, para a casa dos seus amigos, para a praia. Eu amo a sua esquininha, eu amo a sua vida e eu amo tudo o que é seu. Amo você, mesmo sem você me amar. Amo seus rompantes em me devorar com os olhos e amo o nada que sempre vem depois disso. Amo seu nada, apenas porque o seu nada também é seu. Amo tanto, tanto, tanto, que te deixo em paz. Deixo você se virando sozinho, se dobrando sozinho. Virando e dobrando a sua esquininha. Afinal, por ela você também passou quando não me quis mais, quando não quis mais a minha mão pequena querendo ser embalsamada eternamente ao seu lado. (Tati Bernardi)

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autor [Discurso na Universidade de Stanford] Você tem que encontrar o que você ama Estou honrado de estar aqui, na formatura de uma das melhores universidades do mundo. Eu nunca me formei na universidade. Que a verdade seja dita, isso é o mais perto que eu já cheguei de uma cerimônia de formatura. Hoje, eu gostaria de contar a vocês três histórias da minha vida. E é isso. Nada demais. Apenas três histórias. A primeira história é sobre ligar os pontos. Eu abandonei o Reed College depois de seis meses, mas fiquei enrolando por mais 18 meses antes de realmente abandonar a escola. E por que eu a abandonei? Tudo começou antes de eu nascer. Minha mãe biológica era uma jovem universitária solteira que decidiu me dar para a adoção. Ela queria muito que eu fosse adotado por pessoas com curso superior. Tudo estava armado para que eu fosse adotado no nascimento por um advogado e sua esposa. Mas, quando eu apareci, eles decidiram que queriam mesmo uma menina. Então meus pais, que estavam em uma lista de espera, receberam uma ligação no meio da noite com uma pergunta: Apareceu um garoto. Vocês o querem? Eles disseram: É claro. Minha mãe biológica descobriu mais tarde que a minha mãe nunca tinha se formado na faculdade e que o meu pai nunca tinha completado o ensino médio. Ela se recusou a assinar os papéis da adoção. Ela só aceitou meses mais tarde quando os meus pais prometeram que algum dia eu iria para a faculdade. E, 17 anos mais tarde, eu fui para a faculdade. Mas, inocentemente escolhi uma faculdade que era quase tão cara quanto Stanford. E todas as economias dos meus pais, que eram da classe trabalhadora, estavam sendo usados para pagar as mensalidades. Depois de seis meses, eu não podia ver valor naquilo. Eu não tinha idéia do que queria fazer na minha vida e menos idéia ainda de como a universidade poderia me ajudar naquela escolha. E lá estava eu, gastando todo o dinheiro que meus pais tinham juntado durante toda a vida. E então decidi largar e acreditar que tudo ficaria ok. Foi muito assustador naquela época, mas olhando para trás foi uma das melhores decisões que já fiz. No minuto em que larguei, eu pude parar de assistir às matérias obrigatórias que não me interessavam e comecei a frequentar aquelas que pareciam interessantes. Não foi tudo assim romântico. Eu não tinha um quarto no dormitório e por isso eu dormia no chão do quarto de amigos. Eu recolhia garrafas de Coca-Cola para ganhar 5 centavos, com os quais eu comprava comida. Eu andava 11 quilômetros pela cidade todo domingo à noite para ter uma boa refeição no templo hare-krishna. Eu amava aquilo. Muito do que descobri naquela época, guiado pela minha curiosidade e intuição, mostrou-se mais tarde ser de uma importância sem preço. Vou dar um exemplo: o Reed College oferecia naquela época a melhor formação de caligrafia do país. Em todo o campus, cada poster e cada etiqueta de gaveta eram escritas com uma bela letra de mão. Como eu tinha largado o curso e não precisava frequentar as aulas normais, decidi assistir as aulas de caligrafia. Aprendi sobre fontes com serifa e sem serifa, sobre variar a quantidade de espaço entre diferentes combinações de letras, sobre o que torna uma tipografia boa. Aquilo era bonito, histórico e artisticamente sutil de uma maneira que a ciência não pode entender. E eu achei aquilo tudo fascinante. Nada daquilo tinha qualquer aplicação prática para a minha vida. Mas 10 anos mais tarde, quando estávamos criando o primeiro computador Macintosh, tudo voltou. E nós colocamos tudo aquilo no Mac. Foi o primeiro computador com tipografia bonita. Se eu nunca tivesse deixado aquele curso na faculdade, o Mac nunca teria tido as fontes múltiplas ou proporcionalmente espaçadas. E considerando que o Windows simplesmente copiou o Mac, é bem provável que nenhum computador as tivesse. Se eu nunca tivesse largado o curso, nunca teria frequentado essas aulas de caligrafia e os computadores poderiam não ter a maravilhosa caligrafia que eles têm. É claro que era impossível conectar esses fatos olhando para frente quando eu estava na faculdade. Mas aquilo ficou muito, muito claro olhando para trás 10 anos depois. De novo, você não consegue conectar os fatos olhando para frente. Você só os conecta quando olha para trás. Então tem que acreditar que, de alguma forma, eles vão se conectar no futuro. Você tem que acreditar em alguma coisa – sua garra, destino, vida, karma ou o que quer que seja. Essa maneira de encarar a vida nunca me decepcionou e tem feito toda a diferença para mim. Minha segunda história é sobre amor e perda. Eu tive sorte porque descobri bem cedo o que queria fazer na minha vida. Woz e eu começamos a Apple na garagem dos meus pais quando eu tinha 20 anos. Trabalhamos duro e, em 10 anos, a Apple se transformou em uma empresa de 2 bilhões de dólares e mais de 4 mil empregados. Um ano antes, tínhamos acabado de lançar nossa maior criação — o Macintosh — e eu tinha 30 anos. E aí fui demitido. Como é possível ser demitido da empresa que você criou? Bem, quando a Apple cresceu, contratamos alguém para dirigir a companhia. No primeiro ano, tudo deu certo, mas com o tempo nossas visões de futuro começaram a divergir. Quando isso aconteceu, o conselho de diretores ficou do lado dele. O que tinha sido o foco de toda a minha vida adulta tinha ido embora e isso foi devastador. Fiquei sem saber o que fazer por alguns meses. Senti que tinha decepcionado a geração anterior de empreendedores. Que tinha deixado cair o bastão no momento em que ele estava sendo passado para mim. Eu encontrei David Peckard e Bob Noyce e tentei me desculpar por ter estragado tudo daquela maneira. Foi um fracasso público e eu até mesmo pensei em deixar o Vale do Silício. Mas, lentamente, eu comecei a me dar conta de que eu ainda amava o que fazia. Foi quando decidi começar de novo. Não enxerguei isso na época, mas ser demitido da Apple foi a melhor coisa que podia ter acontecido para mim. O peso de ser bem sucedido foi substituído pela leveza de ser de novo um iniciante, com menos certezas sobre tudo. Isso me deu liberdade para começar um dos períodos mais criativos da minha vida. Durante os cinco anos seguintes, criei uma companhia chamada NeXT, outra companhia chamada Pixar e me apaixonei por uma mulher maravilhosa que se tornou minha esposa. A Pixar fez o primeiro filme animado por computador, Toy Story, e é o estúdio de animação mais bem sucedido do mundo. Em uma inacreditável guinada de eventos, a Apple comprou a NeXT, eu voltei para a empresa e a tecnologia que desenvolvemos nela está no coração do atual renascimento da Apple. E Lorene e eu temos uma família maravilhosa. Tenho certeza de que nada disso teria acontecido se eu não tivesse sido demitido da Apple. Foi um remédio horrível, mas eu entendo que o paciente precisava. Às vezes, a vida bate com um tijolo na sua cabeça. Não perca a fé. Estou convencido de que a única coisa que me permitiu seguir adiante foi o meu amor pelo que fazia. Você tem que descobrir o que você ama. Isso é verdadeiro tanto para o seu trabalho quanto para com as pessoas que você ama. Seu trabalho vai preencher uma parte grande da sua vida, e a única maneira de ficar realmente satisfeito é fazer o que você acredita ser um ótimo trabalho. E a única maneira de fazer um excelente trabalho é amar o que você faz. Se você ainda não encontrou o que é, continue procurando. Não sossegue. Assim como todos os assuntos do coração, você saberá quando encontrar. E, como em qualquer grande relacionamento, só fica melhor e melhor à medida que os anos passam. Então continue procurando até você achar. Não sossegue. Minha terceira história é sobre morte. Quando eu tinha 17 anos, li uma frase que era algo assim: Se você viver cada dia como se fosse o último, um dia ele realmente será o último. Aquilo me impressionou, e desde então, nos últimos 33 anos, eu olho para mim mesmo no espelho toda manhã e pergunto: Se hoje fosse o meu último dia, eu gostaria de fazer o que farei hoje? E se a resposta é não por muitos dias seguidos, sei que preciso mudar alguma coisa. Lembrar que estarei morto em breve é a ferramenta mais importante que já encontrei para me ajudar a tomar grandes decisões. Porque quase tudo — expectativas externas, orgulho, medo de passar vergonha ou falhar — caem diante da morte, deixando apenas o que é apenas importante. Não há razão para não seguir o seu coração. Lembrar que você vai morrer é a melhor maneira que eu conheço para evitar a armadilha de pensar que você tem algo a perder. Você já está nu. Não há razão para não seguir seu coração. Há um ano, eu fui diagnosticado com câncer. Era 7h30 da manhã e eu tinha uma imagem que mostrava claramente um tumor no pâncreas. Eu nem sabia o que era um pâncreas. Os médicos me disseram que aquilo era certamente um tipo de câncer incurável, e que eu não deveria esperar viver mais de três a seis semanas. Meu médico me aconselhou a ir para casa e arrumar minhas coisas — que é o código dos médicos para preparar para morrer. Significa tentar dizer às suas crianças em alguns meses tudo aquilo que você pensou ter os próximos 10 anos para dizer. Significa dizer seu adeus. Eu vivi com aquele diagnóstico o dia inteiro. Depois, à tarde, eu fiz uma biópsia, em que eles enfiaram um endoscópio pela minha garganta abaixo, através do meu estômago e pelos intestinos. Colocaram uma agulha no meu pâncreas e tiraram algumas células do tumor. Eu estava sedado, mas minha mulher, que estava lá, contou que quando os médicos viram as células em um microscópio, começaram a chorar. Era uma forma muito rara de câncer pancreático que podia ser curada com cirurgia. Eu operei e estou bem. Isso foi o mais perto que eu estive de encarar a morte e eu espero que seja o mais perto que vou ficar pelas próximas décadas. Tendo passado por isso, posso agora dizer a vocês, com um pouco mais de certeza do que quando a morte era um conceito apenas abstrato: ninguém quer morrer. Até mesmo as pessoas que querem ir para o céu não querem morrer para chegar lá. Ainda assim, a morte é o destino que todos nós compartilhamos. Ninguém nunca conseguiu escapar. E assim é como deve ser, porque a morte é muito provavelmente a principal invenção da vida. É o agente de mudança da vida. Ela limpa o velho para abrir caminho para o novo. Nesse momento, o novo é você. Mas algum dia, não muito distante, você gradualmente se tornará um velho e será varrido. Desculpa ser tão dramático, mas isso é a verdade. O seu tempo é limitado, então não o gaste vivendo a vida de um outro alguém. Não fique preso pelos dogmas, que é viver com os resultados da vida de outras pessoas. Não deixe que o barulho da opinião dos outros cale a sua própria voz interior. E o mais importante: tenha coragem de seguir o seu próprio coração e a sua intuição. Eles de alguma maneira já sabem o que você realmente quer se tornar. Todo o resto é secundário. Quando eu era pequeno, uma das bíblias da minha geração era o Whole Earth Catalog. Foi criado por um sujeito chamado Stewart Brand em Menlo Park, não muito longe daqui. Ele o trouxe à vida com seu toque poético. Isso foi no final dos anos 60, antes dos computadores e dos programas de paginação. Então tudo era feito com máquinas de escrever, tesouras e câmeras Polaroid. Era como o Google em forma de livro, 35 anos antes de o Google aparecer. Era idealista e cheio de boas ferramentas e noções. Stewart e sua equipe publicaram várias edições de Whole Earth Catalog e, quando ele já tinha cumprido sua missão, eles lançaram uma edição final. Isso foi em meados de 70 e eu tinha a idade de vocês. Na contracapa havia uma fotografia de uma estrada de interior ensolarada, daquele tipo onde você poderia se achar pedindo carona se fosse aventureiro. Abaixo, estavam as palavras: Continue com fome, continue bobo. Foi a mensagem de despedida deles. Continue com fome. Continue bobo. E eu sempre desejei isso para mim mesmo. E agora, quando vocês se formam e começam de novo, eu desejo isso para vocês. Continuem com fome. Continuem bobos. (Steve Jobs)

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autor Crônica de um amor anunciado



Toda pessoa apaixonada é um publicitário em potencial. Não anuncia cigarros, hidratantes ou máquinas de lavar, mas anuncia seu amor, como se vivê-lo em segredo diminuísse sua intensidade.

O hábito começa na escola. O caderno abarrotado de regras gramaticais, fórmulas matemáticas e lições de geografia, e lá, na última página, centenas de corações desenhados com caneta vermelha. Parece aula de ciências, mas é introdução à publicidade. Em breve se estará desenhando corações em árvores, escrevendo atrás da porta do banheiro e grafitando a parede do corredor: Suzana ama João.

A partir de uma certa idade, a veia publicitária vai tornando-se mais discreta. Já não anunciamos nossa paixão em muros e bancos de jardim. Dispensa-se a mídia de massa e parte-se para o telemarketing. Contamos por telefone mesmo, para um público selecionado, as últimas notícias da nossa vida afetiva. Mas alguns não resistem em seguir propagando com alarde o seu amor. Colocam anúncios de verdade no jornal, geralmente nos classificados: Kika, te amo. Beto, volta pra mim. Everaldo, não me deixe por essa loira de farmácia. Joana, foi bom pra você também?

O grau máximo de profissionalismo é atingido quando o apaixonado manda colocar sua mensagem num outdoor em frente a casa da pessoa amada. O recado é para ela, mas a cidade inteira fica sabendo que alguém está tentando recuperar seu amor. Em grau menor de assiduidade, há casos em que apaixonados mandam despejar de um helicóptero pétalas de rosas no endereço do namorado, ou gastam uma fortuna para que a fumaça de um avião desenhe as iniciais do casal no céu. A criatividade dos amantes é infinita.

O amor é uma coisa íntima, mas todos nós temos a necessidade de torná-lo público. É a nossa vitória contra a solidão. Assim como as torcidas de futebol comemoram seus títulos com buzinaços, foguetório e cantorias, queremos também alardear nossa conquista pessoal, dividir a alegria de ter alguém que faz nosso coração bater mais forte. É por isso que, mesmo não sendo adepta do estardalhaço, me consterno por aqueles que amam escondido, amam em silêncio, amam clandestinamente. Mesmo que funcione como fetiche, priva o prazer de ter um amor compartilhado.
(Martha Medeiros)

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autor Quero voltar a confiar!
Fui criado com princípios morais comuns: Quando eu era pequeno, mães, pais, professores, avós, tios, vizinhos, eram autoridades dignas de respeito e consideração. Quanto mais próximos ou mais velhos, mais afeto. Inimaginável responder de forma mal educada aos mais velhos, professores ou autoridades… Confiávamos nos adultos porque todos eram pais, mães ou familiares das crianças da nossa rua, do bairro, ou da cidade… Tínhamos medo apenas do escuro, dos sapos, dos filmes de terror… Hoje me deu uma tristeza infinita por tudo aquilo que perdemos. Por tudo o que meus netos um dia enfrentarão.
Pelo medo no olhar das crianças, dos jovens, dos velhos e dos adultos. Direitos humanos para criminosos, deveres ilimitados para cidadãos honestos. Não levar vantagem em tudo significa ser idiota. Pagar dívidas em dia é ser tonto… Anistia para corruptos e sonegadores… O que aconteceu conosco? Professores maltratados nas salas de aula, comerciantes ameaçados por traficantes, grades em nossas janelas e portas. Que valores são esses? Automóveis que valem mais que abraços, filhas querendo uma cirurgia como presente por passar de ano. Celulares nas mochilas de crianças. O que vais querer em troca de um abraço? A diversão vale mais que um diploma. Uma tela gigante vale mais que uma boa conversa. Mais vale uma maquiagem que um sorvete. Mais vale parecer do que ser… Quando foi que tudo desapareceu ou se tornou ridículo?
Quero arrancar as grades da minha janela para poder tocar as flores! Quero me sentar na varanda e dormir com a porta aberta nas noites de verão! Quero a honestidade como motivo de orgulho. Quero a vergonha na cara e a solidariedade. Quero a retidão de caráter, a cara limpa e o olhar olho-no-olho. Quero a esperança, a alegria, a confiança! Quero calar a boca de quem diz: temos que estar ao nível de…, ao falar de uma pessoa. Abaixo o TER, viva o SER. E viva o retorno da verdadeira vida, simples como a chuva, limpa como um céu de primavera, leve como a brisa da manhã!
E definitivamente bela, como cada amanhecer. Quero ter de volta o meu mundo simples e comum. Onde existam amor, solidariedade e fraternidade como bases. Vamos voltar a ser gente. Construir um mundo melhor, mais justo, mais humano, onde as pessoas respeitem as pessoas. Utopia? Quem sabe?... Precisamos tentar… Quem sabe comecemos a caminhar transmitindo essa mensagem… Nossos filhos merecem e nossos netos certamente nos agradecerão!
(Arnaldo Jabor)

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